Memória da antiga cidade e o nascimento da nova Rubinéia
Tudo começou em 1967, com a notícia de que a região de Rubinéia, localizada no interior do estado de São Paulo seria inundada pelas águas do Lago Artificial da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, construída pela Companhia Energética de São Paulo S/A, o que resultaria na inundação de um terço do território de Rubinéia, além da submersão do seu sítio urbano e áreas de terras agrárias cultiváveis.
Então, a CESP, em 1969, deu início à desapropriação e demolição de casas, bares, hotéis, cinema e casas comerciais e, em Eis no que dá ser nome de rua: Sofrem-se os maiores vexames, está o homem tranquilo em sua condição de placa de esquina, servindo à orientação de pedestres e motorizados, e começam a surgir em torno dele estranhas questões ligadas ao desenvolvimento nacional, à propriedade privada e à política em termos paroquiais.
Chega o momento em que até a provação do sequestro lhe é infligida. Pensam que fica nisto? Seus aborrecimentos terminam – estou falando sério – em morte por afogamento.
Tudo isso está acontecendo em Rubinéia com poetas como Vinicius de Moraes e o supra assinado, a quem Rubinéia, com discrição encantadora, pois nada nos comunicou, gentilmente, homenageara promovendo-nos a logradouros públicos.
Ao saber agora da distinção, era caso de soltarmos nossos foguetes e brandirmos nossas copas de uísque. Mas, tristeza das homenagens, o que nos compete é carpir. Pois acabamos de ser vítimas de sequestro e, pior, dentro em breve, soverteremos nas águas.
Pois Rubinéia vai desaparecer da face da terra e, com ela, seremos submergidos.
Em 1973, as águas do Rio Paraná começaram a subir, encobrindo casas, destroços, sonhos, vidas de cidadãos de Rubinéia.
Através de um empréstimo junto ao Banco Bandeirantes, em que um era avalista do outro, para que fosse feita a desapropriação de 24,2 hectares de terras para reconstruir a cidade e, em 1972, surge à primeira casa comercial, e Rubinéia firma-se como cidade, graças à teimosia de Alcides Silva e empenho de Rubens Messaro e Osmar Novaes.
Em 1968, no mandato de prefeito, quando ainda se cogitava a hipótese da inundação, Novaes construiu prédios públicos como o Cemitério e o Matadouro Municipal, longe do alcance das águas, que ele imaginava que não iria alcançar estes locais, já que a inundação ocorrera em 1973.
Mas, diante do perigo eminente, decidiu garantir a integridade dos prédios e quem visita Rubinéia logo percebe que estes lugares estão próximos da cidade, o que muitos, em 1968, disseram ser “loucura”, hoje se tornou astúcia.
Pouco tempo depois, a cidade de Rubinéia já se urbanizava, contava com açougues, empórios, Centro de Saúde, Biblioteca Municipal, Grupo Escolar, Centro Comunitário.
Outro fator interessante da pequena cidade era de que, na hora de batizar suas ruas, a cidade dá exemplo de cultura e respeito, nomeando-as com nomes de poetas e escritores famosos.
Como Olavo Bilac, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, que, em 1971, noticiou os acontecimentos na cidade em sua coluna no Jornal do Brasil do Rio de Janeiro intitulada “Aconteceu em Rubinéia”.
E ainda em 1973 escreveu um poema “Os Submersos”, dando destaque à atitude dos Rubineienses em batizar suas ruas com nome de poetas e escritores, lamentando que suas placas e logradouros estivessem debaixo d’água.
(CARTA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
Que é Rubinéia, onde fica? Rubinéia já era, e não fica propriamente, ficava na margem esquerda do rio Paraná, em São Paulo.
Sete mil habitantes pequena cidade civilizadíssima, pois quando tinha de dar nome a ruas, não fazia por menos: batizava-se de Machado de Assis, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Mario de Andrade, Graciliano Ramos, outros mais.
Esquecendo-se de que estamos vivos, lembrou-se ainda de Vinicius e deste escrevente; dele, com justiça; de mim, como brincadeira.
Cidade quase toda consagrada a poetas e prosadores, haverá outro no Brasil ou no mundo que, em geral, prefere valores menos abstratos?
E assim, em Rubinéia, Machado vizinhava com Cecília, Rosa contava do Urucuia a Bilac, Bandeira e Mário não precisavam cartear-se: viam-se.
Uma cidade diferente na paz de suas belas-letras, no bulício de suas 13 escolas.
Eis que a CESP projeta a barragem de uma usina-monstro, no complexo de Urubupungá.
Toda a região será alagada, e Rubinéia inteira é desapropriada para esse fim.
A população inteira migra para outros lugares, suas casas são demolidas.
Caem nossas ilustres placas, e no chão de escombros não se consente memória de nomes.
Todas as casas? Menos uma, a sede da Prefeitura.
No decorrer do pleito procede-se ao sequestro de depósito das outrora ruas onde outrora placas nos glorificavam.
Operação fantasma promovida por autoridade fantasma.
Mas nos resta o consolo do poeta português Sidônio Muralha, radicado em São Paulo:
“Seus poetas, lá no fundo das águas, vão reconstruí-la, vão reescrevê-la, e ela virá à tona com limos e magmas, e nós, homens mortais, vamos arrancá-la das águas como nasce uma estrela de outra estrela.”
(Carlos Drummond de Andrade)